No novo álbum de Björk não se encontra a energia e densidade de canções como "Army of me",
"Bachelorette", ou "Wanderlust". Porém, isso não elimina a sofisticação dos arranjos e do conceito de
cada canção, trabalhado minuciosamente, como de costume, pela exploradora musical Björk. Em Biophilia (produzido por Björk e 16bit), as notas são rarefeitas, esparsas e baixas,
como se um vácuo permeasse todo o espaço de som, por vezes preenchido pela melodia de um órgão de
tubos, ora rompido por um caos sonoro. Essa parece ter sido a melhor maneira de desenvolver um tema
cercado de mistério – e misticismo: o cosmo.
O ambiente sonoro etéreo e tenso, quase religioso, é criado pela base de órgão,
harpas, silêncio e coro. O universo, a vida, a música e a tecnologia são confundidos propositalmente. O
cosmo e a mente humana, desejo e eletricidade, relacionamentos humanos e movimentos tectônicos são
comparados de modo fractal, onde a parte remete ao todo e vice-versa. O termo biofilia refere-se à
hipótese de que os sistemas vivos estão ligados por um amor latente, que colabora para própria evolução
da vida. Björk parece estender esse conceito a todo cosmo, como se também fosse vivo e por isso
despertaria tanto fascínio, como ela introduz no site
oficial. Biophilia ainda inclui o ouvinte nesse grande encontro de ideias, transformando-o em um agente criador através da tecnologia.
A tecnologia é uma parte importante do projeto Biophilia, que conta com instrumentos especialmente criados para o álbum, todos controlados digitalmente, e um
conjunto de aplicativos que exploram interativamente o conceito de cada canção. A ideia base para os aplicativos é que o ouvinte/usuário possa adentrar no processo de criação da música e fazer suas próprias versões. Neste vídeo há uma breve amostra de cada um
desses aplicativos. O uso de aplicativos amplia o conceito de 'álbum musical' e acaba sendo uma estratégia criativa para contornar a atual crise da indústria fonográfica frente a democratização da informação pela internet (lê-se: downloads ilegais). É bom que recursos como esses se tornem cada vez mais comuns. Mesmo sendo as músicas e aplicativos concebidos conjuntamente, eles são comercializados de forma independente para tornar Biophilia mais acessível. Além da versão com aplicativos para iPhone e iPad, temos o tradicional álbum em CD e também o formato digital, ambos com as músicas propriamente ditas e sem os aplicativos.
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| Cosmogony, o
aplicativo principal |
Nos tópicos abaixo, uma
descrição mais aprofundada de Biophilia.
De Björk não se espera nada menos do que inovação e um projeto muito bem
construído. Em Biophilia, ela parece ter levado isso ao extremo, criando uma unidade conceitual que
alinha signos e significados em todos aspectos do projeto. Cada canção e aplicativo correspondente
estão sintonizados quanto ao conceito, além da ligação que há em todo conjunto de músicas. Além disso e
não menos importante, há perfeita coerência entre a identidade visual do site, aplicativos e álbum,
cenografia e figurino das apresentações ao vivo, fotografia e videografia e mais. Biophilia é, como uma
teoria deve ser, muito bem fundamentado e estruturado.
Para conseguir tudo isso, Björk usou, como sempre, sua rica rede de contatos
nas diversas áreas da música, arte e tecnologia. As músicas e letras foram compostas em parcerias com
Damian Taylor, Oddný Eir Ævarsdóttir, Sjón e Mark Bell. Curiosamente, foram exploradas escalas e
compassos incomuns, abusando de números primos, principalmente o compasso 17/4. A programação fica por
conta de Björk, Damian Taylor, 16 bit, Leila Arab (que contribuiu principalmente na pós-produção para a
versão final do álbum em CD), entre outros.
Uma introdução do projeto e do conceito é contada pela própria Björk no site oficial, com design de M/M
Paris e desenvolvimento em HTML5 por Jam3. O mesmo design está presente no aplicativo
principal do projeto, Cosmogony, incluindo uma introdução narrada pela famosa voz dos documentários da
BBC, David Attenborough.
O desenho da fantasia de Björk, bastante explorada na identidade visual de
Biophilia, coube a M/M Paris e Inez & Vinoodh. Com sua
peruca cor-de-laranja, vestido com uma cinta-harpa e carregando um cristal amarelo, Björk faz também
suas apresentações ao
vivo.
Produzido pela própria Björk e pela dupla Eddie Jefferys e Jason Morrison
(16bit), o álbum foi construído eletronicamente, como de costume. A diferença é que boa parte foi feita
em um tablet... o que não significa muito, apesar de todo o marketing e hype feito sobre
esse detalhe. São os arranjos e instrumentos os que realmente merecem destaque aqui. Para compor os
arranjos, foram usados sintetizadores e instrumentos 'reais' controlados e programados por softwares.
Dentre os instrumentos 'clássicos', contamos com o órgão de tubos e harpas. Há sempre instrumentos mais
exóticos: o sharpsichord (ou pin-barrel harp, como visto aqui), um tipo de realejo gigante reproduzindo
um som de harpa; bobina de Tesla
(Teslacoil), que produz descargas elétricas controladas para produzir notas; hang, um instrumento metálico que usa o
princípio da ressonância de Helmholtz para produzir um som oco, e outros. Além desses, temos
instrumentos exclusivos, idealizados por Björk: o gameleste, um misto de gamelan (tipo xilofone) e celesta; pendulum harp, uma série de pêndulos que
tocam uma harpa durante sua oscilação. Todos esses instrumentos constituem parte importante também nas
performances ao vivo, não só sonoramente, mas compondo o próprio cenário.
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Idealizados por Björk e concebidos em sua maioria por Scott Snibbe, artista
especializado em mídia interativa, os aplicativos são parte importante do conceito por trás de
Biophilia. Há um aplicativo correspondente a cada música e que explora interativamente seu conceito,
como pode ser visto nesta compilação.
Inicialmente desenvolvidos para iOS (iPhone e iPad), podem ser baixados
diretamente da iTunes, sendo o primeiro, Cosmogony, gratuito. Trata-se de uma das mais belas canções do
álbum, cujo aplicativo é base para os demais, permitindo que você navegue por todos através de uma
constelação tridimensional (mostrado a imagem maior, acima). O valor individual de cada um dos outros 9
aplicativos é de US$ 1,99, mas também podem ser comprados em conjunto por US$ 9,99.
Cada aplicativo contém um programa interativo que permite construir a música
trabalhando com seus trechos ou arranjos. Contém também uma resenha por Nikki Dibben, a partitura
criada por Björk e Jónas Sen e uma animação da música através de uma representação visual de cada
instrumento. Atenção para a fonte criada especialmente para o projeto, que incluiu não somente o
alfabeto, mas também a notação musical usada nos aplicativos e partituras.
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Moon relaciona os ciclos lunares, musicais e de nossas escolhas na vida. A canção
singela se inicia com uma sequência decrescente de notas em uma harpa, segue contrapondo-a com outra
sequência crescente e sugere o encontro entre o início e o fim de um ciclo, concluído em "To risk all
is the end all and the beginning all" (esse encontro ficará explícito ao fim do álbum). O aplicativo
permite que você construa sua música usando uma sequência de notas em harpa, representado por uma
corrente de pérolas ou mini-luas. Cada pérola representa uma nota e pode ser alterada, assim como o
tamanho da sequência, representado pela fase da Lua central apoiada em um pedestal-esqueleto. O videoclipe de Moon é uma sobreposição de todos
esses elementos, com destaque para a cinta-harpa da fantasia de Björk.
Thunderbolt introduz o ambiente de mistério que irá prevalecer ao longo do álbum:
órgão de tubos e coro. Depois de divagar sobre a angústia de um desejo que a leva a questionar sobre
acreditar em milagres ("May I, can I or have I too often / Craving miracles?"), faz-se um silêncio,
quebrado pelo som de descargas elétricas ao cantar "No one imagines the light shock I need". Evocando
as energias naturais – ou milagres, segue a partir daí uma série de combinações do som das descargas
que reforçam a tensão da canção. Essas descargas são produzidas por uma bobina de Tesla (Teslacoil), um dos
elementos fundamentais das apresentações ao
vivo. O aplicativo permite produzir o som das descargas através de 'cordas elétricas' vibrando em
notas crescentes.
Crystalline – Com seu gameleste, Björk reproduz o som de cristais como se estivem crescendo ou
brilhando ("listen how they grow/glow") e que dão estrutura à canção. Cristal é o melhor elemento para
figurar na música, cujo tema é a estrutura e organização acontecendo de forma lenta e límpida, das
galáxias aos nossos sentimentos. Complementada com batidas quebradas, a sonoridade da música relembra
um pouco a dos anos 90. O clímax acontece no trecho final, onde batidas frenéticas e caóticas remetem
diretamente ao IDM
de Aphex Twin. No videoclipe de Crystalline, Michel Gondry usa o
que sabe fazer de melhor, sincronizando som e vídeo com diagramas e stop motion. No aplicativo
é possível reconstruir a música concatenando e permutando seus trechos ao fazer uma viagem por tuneis
de cristais de várias cores - cada túnel representando um trecho.
Cosmogony trata das várias versões que nós humanos já demos sobre a criação do
universo, passando por mitos e chegando a teorias cosmológicas. O uso de trombones e trompetes retomam
um pouco Volta, mas dentro do conceito de Biophilia, de forma ressonante e desfocada. Cosmogony
é o aplicativo principal, a partir do qual se acessa os demais através de uma constelação
tridimensional cujas estrelas principais representam as canções/aplicativos. Destaque para a
representação gráfica da música, com o som dos trombones se 'desentortando'.
Dark matter retoma o órgão, agora com notas longas e mudanças bruscas e Björk
cantando em uma língua desconhecida, acompanhada por reflexos distorcidos de sua voz. A canção sombria
é dedicada à parte desconhecida do universo: a matéria e energia escuras, cuja natureza é totalmente
uma incógnita e sua existência só pode ser observada indiretamente. Como aplicativo, Dark Matter
representa notas musicais e suas relações de escala representadas por campos magnéticos de atração e
repulsão em um tipo de jogo da memória. A canção representa também o fim (?) da viagem cosmológica do
álbum.
Hollow – Depois de chegar ao limite do conhecimento em escala cosmológica, somos
transportados diretamente para o mundo em escala microscópica: Hollow propõe uma imersão até o núcleo
de uma célula. Guiado por notas curtas do órgão, Björk descreve o DNA como a herança e moradia de
nossos mais longínquos ancestrais e sugere que é a vontade consciente desses que coordena o
funcionamento e duplicação do DNA. Para o aplicativo, Drew Berry cria mais uma
bela animação biológica 3D representando agora a duplicação do DNA. Ao fim da viagem pode-se coletar proteínas – que representam
trechos da música - e controlar o replissomo, a máquina duplicadora de DNA, para construir uma nova
canção.
Virus compara a relação de uma célula e um vírus com uma contraditória relação
afetuosa: a célula, mesmo que sadia, não resiste a infecção por um vírus que irá, ao fim, destruí-la. O
som do gameleste é agora usado para representar os vírus com seu "crystalline charm", juntamento
com os hangs, uma espécie de vasos
metálicos ocos. Essa relação doentia é muito bem representava no aplicativo: uma célula é atacada por
inúmeros vírus e há a possibilidade de eliminá-los... porém, a música só se desenvolve se você permitir
que os vírus usem a célula até matá-la. Também há um modo no qual pode-se usar os vírus e células como
instrumentos.
Sacrifice tem ao menos duas interpretações possíveis: a relação entre masculino e
feminino na natureza, delegando à fêmea ("she")
o papel de autossacrifício em prol da continuidade da espécie; ou a relação destrutiva do
humano com a natureza ("Now she's poisoned by demands / You cannot answer"). Desse modo, Sacrifice faz
um elo entre a parte biológica e geológica de Biophilia – como a hipótese de Gaia. A música é delineada
por um sharpsichord, um tipo de
realejo gigante que produz som como de uma harpa. Diferente das outras músicas, o conceito dessa não é
traduzido em um aplicativo. O que temos agora é um teclado sonoro, onde cada letra corresponde a uma
nota ou um dos elementos sonoros de Sacrifice, o que permite literalmente digitar uma nova
música.
Mutual Core – deixando totalmente o domínio biológico e partindo para o geológico,
Mutual Core compara as forças tectônicas e as emoções e relações humanas. Com órgãos e uma percussão
digital, a música lembra uma suave canção tribal, descrevendo os lentos movimentos da crosta terrestre
e da aproximação entre as pessoas em direção a um 'núcleo mútuo'... até que movimentos bruscos quebram
esse equilíbrio ("This eruption undoes stagnation / You didn't know I had it in me"). A erupção em
Mutual Core é um dos auges do álbum, mas que cessa repentinamente, assim como se iniciou. O aplicativo
representa teclas do órgão por camadas da crosta terrestre, o som sendo produzido quando se vence a
resistência e as camadas se encontram. Durante a erupção, o usuário é levado a um globo formado por
semiesferas que giram em torno do centro e o desafia atingi-lo, o que faz cessar a
erupção.
Solstice trata ainda da Terra, mas em relação a sua posição do espaço. Contempla
sua órbita e as variações da luminosidade ao longo das estações do ano com os ápices nos solstícios, um
dos quais relacionado ao Natal. Usando a original harpa-pêndulo (pendulum harp), a música reproduz notas de modo periódico, em
referência ao movimento elíptico do planeta (com o estéreo dos fones de ouvido, percebe-se claramente a
oscilação as notas no espaço). O álbum, iniciado com os ciclos de Moon, encerra-se então através de
novos ciclos em Solstice... esse encontro do início e o fim parecem configurar o próprio Biophilia como
um ciclo. Solstice tem um dos aplicativos mais belos: permite construir músicas produzindo várias
sequências periódicas de notas de harpa ao criar um sistema estelar. O mesmo sistema, quando observado
de outro ângulo, revela ser uma árvore de Natal.
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2 comentários:
A minuciosidade e a complexidade presentes no trabalho Biophilia de Björk, demonstram alto grau de conhecimento sobre música e mídias. Não foi simplesmente criar músicas. Neste trabalho é possível observar anos de estudos e a vontade de fazer algo inovador e único. Gostei muito do texto, explica muito bem o trabalho citado, parabéns!
Achei mais estranho do que o habitual, e bem bonito.
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