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quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Ateu e...

A palavra ateu é outra cercada por preconceitos. Quando alguém se diz ateu, ele abre brecha para uma enxurrada de ataques, principalmente por parte de religiosos, digamos, voluntariamente mal informados (vide caso Nando Reis). Aqui no nosso país essa parcela dos religiosos está muito ‘bem representada’ pela crescente massa de (neo)pentecostais (sem tirar o mérito dos demais cristãos pouco esclarecidos, por favor). Na lógica desses, se não se está com seu deus, está com o diabo... logo um ateu é um satanista. Esquece-se de que para um ateu não fazem sentido a existência de deuses nem demônios. Outra conclusão errônea é que o ateu é desprovido de valores morais e éticos, altruísmo, humildade e amor, como se tudo isso fosse patenteado por algum deus. Esquece-se que qualquer sociedade na face da terra, qualquer religião que professe, desenvolveu e cultivou todos esses conceitos, sendo portanto de natureza humana, e não sobrenatural. Outra: ateus são acusados de arrogantes e de se autodenominarem deuses... Esquecem agora que a busca pelo conhecimento, feita pelo questionamento, só cabe na humildade; enquanto que se afirmar como único digno de salvação e subjugar os demais é um exercício da arrogância. (Todos esses discursos intolerantes estão compilados na mente de Datena, por exemplo). 

Apesar de ser bem simples desfazer os ataques típicos a ateus como acima, devo reconhecer que boa parte dessas interpretações equivocadas se baseiam na lacuna presente do termo ‘ateu’. Quando alguém se diz cristão, por exemplo, não supomos apenas um conjunto de crenças, mas dogmas e doutrinas, que de certo modo delineiam uma conduta ética, filosófica, por mais que haja variações – e como há! Já o termo ateu é apenas uma negação: caracteriza a descrença em deuses ou outros seres e fenômenos sobrenaturais... e nada diz sobre o que o ateu pratica. Para isso, é preciso um complemento. 

Há pouco tempo entrei em contato com um desses complementos: o humanismo secular. Abrangendo não só ateus, mas também agnósticos e outros não religiosos, o humanismo secular é uma corrente filosófica  relativamente recente, mas cujos moldes são aqueles do renascimento ou iluminismo. Trata-se de uma visão focada na ciência e razão como fonte de progresso, acompanhado de constante preocupação com o bem estar humano e social... e independente de crenças sobrenaturais. Busca a ética política e social, direitos humanos, acesso ao conhecimento e ciência, consciência de nossas limitações e responsabilidades individuais. Com tudo isso, o humanismo secular descreveu e sintetizou os vários ideais e posicionamentos que desenvolvi ao longo de minha vida muito antes de encontrá-lo formalmente. Pessoas e comunidades, como o Bule Voador, têm contribuído para conhecê-lo melhor e até então a muito tenho me identificado. E na convicção de que não menos importante do que dizer o que não acredito, deve ser dizer em que acredito e o que pratico, afirmo: sou ateu e humanista secular (pelo menos até agora!).

2 comentários:

marcos assis disse...

hum, interessante a historinha do bule, mas me soa meio positivista esse negócio. depois me explica melhor

Raquel disse...

Esse negócio de não se respeitar a liberdade de expressão de alguém é algo inadmissível. Quando a agressão se torna escancarada passa a ser realmente preocupante. Fiquei abismada com o vídeo do Datena. Apesar de o considerar sem cérebro, muitos assistem a esse panaca. Curioso...lembra daquele caso da menina Miriam Brandão, que chocou BH? Foi na mesma época da morte da atriz Daniela Peres. O que poucos sabem é que o assassino da menininha está livre e já fundou 3 igrejas evangélicas no interior de Minas. A menina, só para lembrar, tinha 5 anos, foi sequestrada, estuprada, esquartejada e queimada. No crime, há três homens envolvidos. Mesmo após assassinarem a menina, telefonaram para a família dela pedindo dinheiro (não satisfeitos com toda a barbárie, ainda resolveram tentar ganhar algum em cima da pobre menina). Hoje o filho-da-puta é pastor evangélico. Que se divulgue isso. Queremos justiça.