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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

luxúria é a nova virtude!

Buscar prazer e evitar a dor é um princípio básico humano - senão animal. Contudo, existe uma forma supervalorizada desse princípio, cada vez mais disseminada, absorvida e cultuada: o hedonismo egoísta; a busca exacerbada pelo prazer imediato, intenso e individual, por muitos creditado como o sentido absoluto da vida. Seja por uma histeria coletiva, seja por fuga das novas angústias da contemporaneidade, tal comportamento vem se tornando lugar-comum na nossa sociedade. Chega a tal ponto de tornar-se um mal, fazendo dos vícios virtudes. Está associado ao consumismo, abuso de drogas, excessos alimentares e, sem surpresa, excessos sexuais.

Ter uma sexualidade sadia e equilibrada é previlégio de poucos. Como dito, estamos imersos em uma cultura da supervalorização dos prazeres imediatos e portanto suscetibilidade à vícios, o que inclui fortemente o sexo. Além disso, é reforçada a ideia de sexo ser produto: ter uma vida sexual muito ativa, em quantidade e diversidade, é uma questão de status. Até são criados novos termos para tentar enquadrar os novos comportamentos sexuais, como a pansexualidade. Entretanto, seria muita ingenuidade minha acusar apenas a contemporaneidade por fazer da luxúria uma nova virtude.

Sexo é um tema problemático - fato! E o principal problema é ser muito democrático: todos podem ter (com ressalva àqueles incapacitados física, psiquica ou fisiologicamente, claro). Daí é criado aquele paradoxo: apesar de todos quererem, gostarem e falarem muito de sexo, poucos sabem sobre, poucos o tem sem tabus e preconceitos. Um desses tabus é expressado pela máxima "Sexo nunca é demais", uma óbvia demonstração de falta de sensatez que envolve a discussão sobre o tema. Mesmo que a pessoa não tenha uma vida sexual demasiada, ela reproduz a máxima.

Não se costuma encarar como problema o excesso ou até a obsessão sexual - não falo apenas a relação sexual propriamente dita, mas toda forma de exercício da sexualidade e da libido. Pelo contrário, é um motivo de vanglória. Esse engano certamente não é exclusividade de nossos tempos, tendo raízes muito antigas sempre nutrido por sexismo e desinformação. Justifica-se por ele uma série de faltas éticas e de caráter. Ainda pior, esconde-se com isso problemas mais graves. Do ponto de vista científico, a psicologia reconhece que esses comportamentos excessivos, assim como qualquer outro, estão associados a transtornos psíquicos e merecem atenção o quanto antes, mas, pelos motivos citados, são ignorados.

Não bastasse todo esse histórico, não podemos esquecer da revolução sexual do século passado. Apesar de toda a contribuição positiva e necessária que ela trouxe, ainda hoje a revolução soa como novidade, ainda há conflitos fortes entre as gerações pré e pós, ainda há ignorância sobre o seu significado... e o pior: ainda há a confusão entre liberdade e libertinagem - frase feita, mas muito adequada aqui. Parece que ainda não sabemos usar o poder que os anos 60 nos deram e ficamos perdidos.

Em suma, na eterna oposição entre instinto e razão, nos encontramos em uma fase estranha onde esta é refém daquele - o superego, do ide; a realidade, da fantasia - e a ele dá voz. Nos resta saber se isso evoluirá pra uma 'Síndrome de Estocolmo' ou se algum dia conseguiremos chegar a um equilíbrio sexual, psicológica e socialmente, ainda inédito na humanidade.

5 comentários:

tibabity disse...

Gostei muito da sua reflexão. Sempre me revoltou o modo como as pessoas conversam sobre sexo, principalmente as mulheres! Ninguém consegue conversar sobre o assunto com naturalidade! Ou a pessoa morre de vergonha de falar do assunto, ou então ela tem uma vida sexual tão impressionate que só pode ser mentira. A mulher brasileira tem fama mundial por ser "desinibida", mas a única amiga que tive com a qual pude conversar abertamente sobre sexo é colombiana! E como você bem disse, apesar de todos quererem, gostarem e falarem muito de sexo, poucos sabem sobre! As mulheres não conhecem bem nem seu próprio corpo!

Raquel disse...

espetacular!

Priscila Santana disse...

Falar sobre sexo é um grande tabu, principalmente pelo conservadorismo existente. É importante fazer reflexões como as expostas aqui para conhecermos outros pontos de vista e obtermos novas informações. Por exemplo, eu nunca tinha ouvido falar de Pansexualidade ... hehe. Mas já pesquisei e agora eu sei ... kkk.

Raquel disse...

vc foi eufemista, éden. poderia ter sido mais explícito ao trocar luxúria por putaria.
a putaria parece ter se tornado uma virtude para boa parte das pessoas sim.
pessoal anda descontrolado...hehehe

thg disse...

Mesmo assim, para alguns, luxúria é um luxo.