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Bons meninos escovam bem os dentes!
- outra coisa que Papai Noel falou. |
Uma vez uma amiga me disse que seu dentista, o Papai Noel, disse a ela que ser humilde não é somente reconhecer nossos defeitos, mas também saber reconhecer nossas qualidades. A filosofia de Noel me abalou inicialmente e me pôs a pensar no meu conceito de humildade. Eu, de criação brasileira e cristã, sempre pensava em humildade quase como uma auto humilhação, negar-se, colocar-se como inferior sempre, o que não deixaria espaço para se admirar. O incômodo que as palavras de Noel me causaram se justifica pela natureza ingênua e questionável do meu então conceito de humildade e me forçou a procurar estendê-lo e entendê-lo melhor.
Por que temos receio de reconhecer nossas qualidades ou de expressá-las? Por que temer nossos méritos? Não digo em se vangloriar, mas apenas de reconhecer aquilo em que somos bons. A resposta para isso não é somente o risco de se confundir ou ser presunçoso. Mais do que isso, mostrar nossas qualidades pode ofender... e muito. Muitas vezes, portanto é preferível se omitir e até se negar. Não se trata de falsa modéstia, é uma culpa por ter uma característica que muitos não têm por algum motivo - como se isso fosse algo para se envergonhar. Para entender esse fenômeno, basta pensarmos, por exemplo, em beleza, riqueza e intelectualidade que já nos vêm à tona inúmeras correlações negativas: beleza com futilidade, sabedoria com arrogância, riqueza com falta de generosidade, talento com insanidade, etc. Por mais que haja comportamentos que pareçam confirmar essas correlações, elas não são, definitivamente, causas ou consequências dos méritos, mas talvez de uma falta de preparo de seus detentores para lidar com eles. Daí vêm outras questões: por que essa dificuldade de aceitar que as pessoas podem ser "fodas" (ou mais fodas que a gente) e por que não admirar e comemorar isso?
É natural fugirmos da mediocridade, temos até medo dela (Com mediocridade não quero ser pejorativo, mas apesar usar o sentido próprio da palavra: aquilo que é mediano, sem destaques positivos, nem negativos; sem méritos. Também não estou me referindo a pessoas como medíocres, mas há habilidades, pensamentos e comportamentos que podem ser assim caracterizados e a que todos nós estamos sujeitos). Esse mesmo medo que pode nos levar a busca por uma evolução pessoal e por nossos próprios méritos, também pode nos levar um estado de acomodação própria e resistência aos méritos alheios. Esse último comportamento, o pensamento verdadeiramente mediocrizante, nos faz então renegar o novo e incomum e estabelecer como padrão de valor o nível mediano ou até mesmo inferior da capacidade humana. Delegamos a falta de méritos - ocasionais ou intencionais - o valor de 'cultura pura', aquilo que realmente é digno de ser chamado de humano. Algo além disso seria destoante e ofensivo para a maioria e por isso atacado. No aspecto intelectual, por exemplo, o desprezo pela cultura e conhecimento desenvolvidos e acumulados durante milênios de civilização, como se fossem coisas impuras ou artificiais, revela um dos triste equívocos do pensamento mediocrizante: acreditar que a curiosidade de nossa mente é menos natural quanto outras necessidades – crença também conhecida como ignorância.
Apesar do pensamento mediocrizante ser até compreensível em muito pontos, não podemos negar seus efeitos negativos. Ainda mais quando observamos que em nossa sociedade atual ele parece estar mais aflorado, beirando uma 'ditadura da mediocridade'. Os méritos, que outrora eram motivo de celebração e demonstravam a capacidade humana de superação e evolução, hoje tendem a ser suprimidos. Mais grave, observamos uma supervalorização de elementos degenerados da ética e comportamento humanos como cultura popular (ex.: 'jeitinho brasileiro'), elevamos problemas sociais ao status de cultura a ser preservada ao invés de combatê-los (ex.: favelização e marginalidade), elevamos frutos da aculturação como obras de arte (ex.: funk carioca 'proibidão'). Essa ideologia está inclusive institucionalizada em nosso modelo educacional: é proibitivo premiar ou priorizar alunos por seus méritos intelectuais, humanistas, artísticos ou esportivos (esse último em menor escala, pela própria natureza competitiva do esporte). Esse modelo sugere que para não ofender nenhum aluno, devemos enganá-los positivamente: todos devem ser tratados e avaliados (ou não avaliados) igualmente, pois 'ninguém é melhor que ninguém' e que 'todos podem tudo'. É verdade que como humanos temos direitos universais que devem ser garantidos a todos, independente de méritos ou limitações; o que não é verdade é que incluir toda a diversidade signifique negar ou ignorar as diferenças naturais entre as pessoas, como talento, capacidade e dedicação. O resultado desse método é que, para atender a todos, corremos o risco de nivelarmos por baixo, ou ao menos darmos à mediocridade o valor regente nas nossas crianças e jovens. (Mais sobre o 'pensamento positivo' aplicado na educação americana e por extensão à brasileira em Positivamente Enganados: Os Mitos e Erros do Movimento do Pensamento Positivo).
Resumindo: se individualmente o pensamento mediocrizante causa acomodação e estagnação das habilidades próprias, socialmente os efeitos são ainda mais nocivos. Autolimitar-se, inibir o desenvolvimento dos outros, rejeitar novas ideias, experiências e até mesmo pessoas - porque aceitá-las muitas vezes requer se questionar e se conhecer - são alguns mais evidentes. Esse comportamento parece se estruturar até mesmo como um inconsciente coletivo, preconcebendo características pejorativas e ataques a alguns méritos e até uma supervalorização do medíocre.
O que surgiu de uma discussão sobre humildade, chegou longe e virou uma discussão sobre o medo da mediocridade. E que parecia um simples medo individual, transforma-se numa mazela cultural. Nada surpreendente, desde que pensemos que nossos comportamentos refletem a sociedade da qual fazemos parte... e também o contrário. Por fim, precisei crescer e pensar muito para dizer que acredito no Papai Noel (ou no que ele falou). Reconhecer e poder se orgulhar dos próprios méritos está relacionado com a capacidade de reconhecermos também as qualidades dos outros e entender o nosso papel como parte da sociedade (ou algo maior). De mesma natureza é reconhecer nossos defeitos e os alheios e sabermos criticá-los e aceitar críticas. Isso não é fácil, mas é possível; é por sua vez um grande mérito da nossa capacidade racional e altruísmo – característico da espécie humana. Fazer isso não implica em arrogância ou prepotência, pelo contrário, isso só cabe dentro de humildade - e é isso o que ele deve ter querido dizer! A humildade como autoconhecimento e aprendizado, como um dos modos de alcançar evolução pessoal e da sociedade. Se não acredita em Papai Noel, confie em mim.