Cosmogonias: 0 - I - II - III - IV - V -



segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Cosmogonia III

Uma célula, duas células e logo era um embrião. Sem parar de crescer, se tornou um ser esguio e sem membros, de pele bege e frágil, rasgada irregularmente por tufos de pelos esverdeados. Crescia constantemente e tomava forma. Numa extremidade, algo tentava se assemelhar a uma cabeça, com uma ventosa e um projeto de olho. O corpo se planificava e afinava até a outra extremidade, balançando no tempo - era como um verme. Parou de crescer e por um momento se aquietou. Porém, como se estivesse acometido por uma dor intensa, começou a tremer e se contorcer. Ao longo de seu corpo brotavam bolhas de células regadas de um muco esverdeado. Como tumores, cresciam até se romperem, provocando curtos espasmos ao verme. O grande verme parecia berrar de pavor, apesar de estar envolto em silêncio. Desses tumores, primeiro surgiram estranhos seres alados. Batendo desesperadamente suas asas, pareciam estar fugindo para longe do corpo do verme. Não conseguiam ir para muito longe, pois logo sua energia se esvanecia e o corpo se esfarelava. Mas a vontade da fuga permanecia, impulsionando o pó de seus corpos para cada vez mais longe. Dos tumores do verme passaram a surgir novas formas, esféricas, estreladas, planas, cilíndricas, ora com tentáculos, ora membros, chifres, ramos e flagelos... mas todas tinham a mesma vontade e o mesmo destino. Logo todo o ambiente se tornou empoeirado pelos restos dos corpos em fuga e gotejados pelo fluido verde viscoso que estourava do verme. Todo esse material às vezes se condensava em blocos, alguns mórbidos como rochas e outros tão vívidos como tumores. Desses blocos-tumores surgiam novos seres, novamente fugiam e novamente se faziam pó. Num ciclo intermitente de recriação e destruição, Vida, o grande verme, modelou todo o universo.

uma imagem para tentar descrever - em conceptart.org, de acb.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Cosmogonia II


O Arquiteto vagava solitário e descontente, até que pousou sobre um vasto plano, recoberto de uma areia fina, branca e brilhante.  Assim que se formaram seus olhos, viu que uma brisa criava imagens sobre a areia, modelada por sua própria consciência. Ele admirou aquele belo e imenso painel de tal forma que desejou que fosse real. O vermelho de seu corpo estava mais vivo e o dourado, mais brilhante.

Começou a desenhar e calcular e, tomando a areia, passou a construir seus projetos. Usando as ferramentas douradas que embutia em seu corpo, montou objetos esféricos e os posicionou de modo que orbitassem uns aos outros, em um movimento preciso e perpétuo.  Esculpiu e pintou um a um, dando todas as formas e cores que podia imaginar. Passou a observar sua realização por vários ângulos e a cada visão se sentia mais feliz e encantado. Desejou mais, e quis estar em todos os lugares ao mesmo tempo para contemplar sua obra.

Então, recolheu o restante da areia, retomou seus desenhos e cálculos e criou receptáculos esculpidos em grãos. Retirou uma parte de seu corpo vermelho-vigoroso e a colocou nesses receptáculos, preenchendo-os de sua própria essência e desejo. A partir daí se tornaram autômatos e se espalharam por toda a obra em um fluxo impreciso e volátil, mas contínuo. Repousando sobre outros corpos, podiam tomar formas e cores diversas, permitindo que o Arquiteto se estabelecesse em vários pontos de sua obra e a apreciasse de vários modos.

O Arquiteto percebeu que alguns de seus autômatos tomaram formas habilidosas e passou a estar entre eles, ensinando sua técnica e arte. Ele agora não só estava mesclado em sua obra para admirá-la, mas também para continuamente construí-la.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Portas

Você certamente passa por inúmeras ao longo do dia, abrindo e fechando-as sem se dar conta. Pelo menos por aquelas que já se encontram abertas e as fechadas para as quais você deve ter as chaves – como qualquer pessoa importante, você deve ter muitas chaves. As fechadas e sem chave ou emperradas sim, você vai notar. Se um chaveiro não estiver à disposição, nada que um arrombamento não resolva. Você vai ficar com muita raiva também se uma porta que deveria estar fechada for indiscreta ou forçosamente aberta. Vai reclamar muito quando essas coisas acontecerem, mas logo vai se esquecer, até porque o senso comum nos diz que quando uma porta se fecha, outras se abrem. Apesar disso, na maior parte do tempo elas vão guardar suas coisas, impedir que pessoas indesejadas entrem em suas salas e as maçanetas não vão resistir ao torque dos seus punhos. Surdas, mudas – se bem que algumas vão ranger e anunciar sua chegada – e quietas.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Painel Musical 2011


d-_-b
=D
=)
=|
=(
Biophilia - Björk

Acima, uma avaliação pessoal dos álbuns que de 2011 que andei ouvindo. Pesquisei bem menos do que costumava nos anos anteriores e consequentemente tive menos descobertas. Fiquei mais a espera do lançamentos de já conhecidos. Em geral, entre esperados e descobertas, o ano foi mediano. 
RHCP e Chico Buarque já davam indício pelos álbuns anteriores que não me empolgariam, mas sempre resta uma esperança para ser frustrada. Já Björk e Metronomy estiveram no outro extremo, não só me deixando apaixonado, mas fazendo me envolver cada vez mais. Adriana e Marisa sempre bem produzidas, mas não me emocionaram nos novos trabalhos - ao contrário dos anteriores. O mesmo para Radiohead e Coldplay, com ótimos álbuns anteriores, mas não compareceram do mesmo modo com os atuais. James Blake pareceu interessante, mas também não compareceu como prometido. Já Criolo foi novidade e das boas. Wilco foi uma ótima indicação, assim como o rock do The Black Keys. Os demais foram esperados que em nada me decepcionaram, pelo contrário, evoluíram em relação aos anteriores, com destaque para Ladytron.
Abaixo, links para quem quiser ouvir algumas faixas selecionadas desses álbuns.

11 - I
01 - Cosmogony - Björk
02 - The Look - Metronomy
03 - Undiscovered First - Feist
04 - Limit to your love - James Blake
05 - Our day will come - Amy Winehouse
06 - No Window - The Antlers
07 - Painted Eyes - Hercules and Love Affair
08 - Born Alone - Wilco
09 - O que você quiser saber de verdade - Marisa Monte
10 - Princess of China - Coldplay
11 - Civilization - Justice
12 - Speaking in Tongues - Arcade Fire
Grooveshark - Download (mp3 320)

11 - II
01 - Mutual Core - Björk
02 - The Bay - Metronomy
03 - White Elephant - Ladytron
04 - Não existe amor em SP - Criolo
05 - Nova Baby - The Black Keys
06 - Need You Now - Cut Copy
07 - Live those days tonight - Friendly Fires
08 - Holy Ghost - White Lies
09 - Vai saber? - Adriana Calcanhotto
10 - Ghost - dEUS
11 - Lotus Flower - Radiohead
12 - Swallowing the Decibels - Yeasayer
Grooveshark - Download (mp3 320)

domingo, 25 de dezembro de 2011

Acredito em Papai Noel

Bons meninos escovam bem os dentes!
- outra coisa que  Papai Noel falou.
Uma vez uma amiga me disse que seu dentista, o Papai Noel, disse a ela que ser humilde não é somente reconhecer nossos defeitos, mas também saber reconhecer nossas qualidades. A filosofia de Noel me abalou inicialmente e me pôs a pensar no meu conceito de humildade. Eu, de criação brasileira e cristã, sempre pensava em humildade quase como uma auto humilhação, negar-se, colocar-se como inferior sempre, o que não deixaria espaço para se admirar. O incômodo que as palavras de Noel me causaram se justifica pela natureza ingênua e questionável do meu então conceito de humildade e me forçou a procurar estendê-lo e entendê-lo melhor.

Por que temos receio de reconhecer nossas qualidades ou de expressá-las? Por que temer nossos méritos? Não digo em se vangloriar, mas apenas de reconhecer aquilo em que somos bons. A resposta para isso não é somente o risco de se confundir ou ser presunçoso. Mais do que isso, mostrar nossas qualidades pode ofender... e muito. Muitas vezes, portanto é preferível se omitir e até se negar. Não se trata de falsa modéstia, é uma culpa por ter uma característica que muitos não têm por algum motivo - como se isso fosse algo para se envergonhar. Para entender esse fenômeno, basta pensarmos, por exemplo, em beleza, riqueza e intelectualidade que já nos vêm à tona inúmeras correlações negativas: beleza com futilidade, sabedoria com arrogância, riqueza com falta de generosidade, talento com insanidade, etc. Por mais que haja comportamentos que pareçam confirmar essas correlações, elas não são, definitivamente, causas ou consequências dos méritos, mas talvez de uma falta de preparo de seus detentores para lidar com eles. Daí vêm outras questões: por que essa dificuldade de aceitar que as pessoas podem ser "fodas" (ou mais fodas que a gente) e por que não admirar e comemorar isso?

É natural fugirmos da mediocridade, temos até medo dela (Com mediocridade não quero ser pejorativo, mas apesar usar o sentido próprio da palavra: aquilo que é mediano, sem destaques positivos, nem negativos; sem méritos. Também não estou me referindo a pessoas como medíocres, mas há habilidades, pensamentos e comportamentos que podem ser assim caracterizados e a que todos nós estamos sujeitos). Esse mesmo medo que pode nos levar a busca por uma evolução pessoal e por nossos próprios méritos, também pode nos levar um estado de acomodação própria e resistência aos méritos alheios. Esse último comportamento, o pensamento verdadeiramente mediocrizante, nos faz então renegar o novo e incomum e estabelecer como padrão de valor o nível mediano ou até mesmo inferior da capacidade humana. Delegamos a falta de méritos - ocasionais ou intencionais - o valor de 'cultura pura', aquilo que realmente é digno de ser chamado de humano. Algo além disso seria destoante e ofensivo para a maioria e por isso atacado. No aspecto intelectual, por exemplo, o desprezo pela cultura e conhecimento desenvolvidos e acumulados durante milênios de civilização, como se fossem coisas impuras ou artificiais, revela um dos triste equívocos do pensamento mediocrizante: acreditar que a curiosidade de nossa mente é menos natural quanto outras necessidades – crença também conhecida como ignorância.

Apesar do pensamento mediocrizante ser até compreensível em muito pontos, não podemos negar seus efeitos negativos. Ainda mais quando observamos que em nossa sociedade atual ele parece estar mais aflorado, beirando uma 'ditadura da mediocridade'. Os méritos, que outrora eram motivo de celebração e demonstravam a capacidade humana de superação e evolução, hoje tendem a ser suprimidos. Mais grave, observamos uma supervalorização de elementos degenerados da ética e comportamento humanos como cultura popular (ex.: 'jeitinho brasileiro'), elevamos problemas sociais ao status de cultura a ser preservada ao invés de combatê-los (ex.: favelização e marginalidade), elevamos frutos da aculturação como obras de arte (ex.: funk carioca 'proibidão'). Essa ideologia está inclusive institucionalizada em nosso modelo educacional: é proibitivo premiar ou priorizar alunos por seus méritos intelectuais, humanistas, artísticos ou esportivos (esse último em menor escala, pela própria natureza competitiva do esporte). Esse modelo sugere que para não ofender nenhum aluno, devemos enganá-los positivamente: todos devem ser tratados e avaliados (ou não avaliados) igualmente, pois 'ninguém é melhor que ninguém' e que 'todos podem tudo'. É verdade que como humanos temos direitos universais que devem ser garantidos a todos, independente de méritos ou limitações; o que não é verdade é que incluir toda a diversidade signifique negar ou ignorar as diferenças naturais entre as pessoas, como talento, capacidade e dedicação. O resultado desse método é que, para atender a todos, corremos o risco de nivelarmos por baixo, ou ao menos darmos à mediocridade o valor regente nas nossas crianças e jovens. (Mais sobre o 'pensamento positivo' aplicado na educação americana e por extensão à brasileira em Positivamente Enganados: Os Mitos e Erros do Movimento do Pensamento Positivo).

Resumindo: se individualmente o pensamento mediocrizante causa acomodação e estagnação das habilidades próprias, socialmente os efeitos são ainda mais nocivos. Autolimitar-se, inibir o desenvolvimento dos outros, rejeitar novas ideias, experiências e até mesmo pessoas - porque aceitá-las muitas vezes requer se questionar e se conhecer - são alguns mais evidentes. Esse comportamento parece se estruturar até mesmo como um inconsciente coletivo, preconcebendo características pejorativas e ataques a alguns méritos e até uma supervalorização do medíocre.

O que surgiu de uma discussão sobre humildade, chegou longe e virou uma discussão sobre o medo da mediocridade. E que parecia um simples medo individual, transforma-se numa mazela cultural. Nada surpreendente, desde que pensemos que nossos comportamentos refletem a sociedade da qual fazemos parte... e também o contrário. Por fim, precisei crescer e pensar muito para dizer que acredito no Papai Noel (ou no que ele falou). Reconhecer e poder se orgulhar dos próprios méritos está relacionado com a capacidade de reconhecermos também as qualidades dos outros e entender o nosso papel como parte da sociedade (ou algo maior). De mesma natureza é reconhecer nossos defeitos e os alheios e sabermos criticá-los e aceitar críticas. Isso não é fácil, mas é possível; é por sua vez um grande mérito da nossa capacidade racional e altruísmo – característico da espécie humana. Fazer isso não implica em arrogância ou prepotência, pelo contrário, isso só cabe dentro de humildade - e é isso o que ele deve ter querido dizer! A humildade como autoconhecimento e aprendizado, como um dos modos de alcançar evolução pessoal e da sociedade. Se não acredita em Papai Noel, confie em mim.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Natimorto

Todos nascem destinados à morte,
mas esse já nascerá morto,
destinado ao fracasso. 
Deste, nenhum órgão irá se aproveitar, 
suas ações não vão modificar nada, 
sua existência não vai tocar ninguém. 
Não cativará, não será desejado, nem sequer percebido. 
Será uma sombra, sem alma
e se esconderá com a máscara da anulação
- como se a insignificância natural já não fosse suficiente. 
Disso tudo ele terá consciência, mas ainda assim 
manterá o instinto que o fará sobreviver e até querer viver. 
A esperança convivendo com a certeza da impossibilidade
será o castigo merecido.

sábado, 5 de novembro de 2011

Biofilia

Download Biophilia: Torrent, MP3 320kbps & FLAC
No novo álbum de Björk não se encontra a energia e densidade de canções como "Army of me", "Bachelorette", ou "Wanderlust". Porém, isso não elimina a sofisticação dos arranjos e do conceito de cada canção, trabalhado minuciosamente, como de costume, pela exploradora musical Björk. Em Biophilia (produzido por Björk e 16bit), as notas são rarefeitas, esparsas e baixas, como se um vácuo permeasse todo o espaço de som, por vezes preenchido pela melodia de um órgão de tubos, ora rompido por um caos sonoro. Essa parece ter sido a melhor maneira de desenvolver um tema cercado de mistério – e misticismo: o cosmo.

O ambiente sonoro etéreo e tenso, quase religioso, é criado pela base de órgão, harpas, silêncio e coro. O universo, a vida, a música e a tecnologia são confundidos propositalmente. O cosmo e a mente humana, desejo e eletricidade, relacionamentos humanos e movimentos tectônicos são comparados de modo fractal, onde a parte remete ao todo e vice-versa. O termo biofilia refere-se à hipótese de que os sistemas vivos estão ligados por um amor latente, que colabora para própria evolução da vida. Björk parece estender esse conceito a todo cosmo, como se também fosse vivo e por isso despertaria tanto fascínio, como ela introduz no site oficial. Biophilia ainda inclui o ouvinte nesse grande encontro de ideias, transformando-o em um agente criador através da tecnologia.

A tecnologia é uma parte importante do projeto Biophilia, que conta com instrumentos especialmente criados para o álbum, todos controlados digitalmente, e um conjunto de aplicativos que exploram interativamente o conceito de cada canção. A ideia base para os aplicativos é que o ouvinte/usuário possa adentrar no processo de criação da música e fazer suas próprias versões. Neste vídeo há uma breve amostra de cada um desses aplicativos. O uso de aplicativos amplia o conceito de 'álbum musical' e acaba sendo uma estratégia criativa para contornar a atual crise da indústria fonográfica frente a democratização da informação pela internet (lê-se: downloads ilegais). É bom que recursos como esses se tornem cada vez mais comuns. Mesmo sendo as músicas e aplicativos concebidos conjuntamente, eles são comercializados de forma independente para tornar Biophilia mais acessível. Além da versão com aplicativos para iPhone e iPad, temos o tradicional álbum em CD e também o formato digital, ambos com as músicas propriamente ditas e sem os aplicativos. 

Cosmogony, o aplicativo principal



Nos tópicos abaixo, uma descrição mais aprofundada de Biophilia.

O Projeto  

Os aplicativos 

Faixa a faixa 

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Ateu e...

A palavra ateu é outra cercada por preconceitos. Quando alguém se diz ateu, ele abre brecha para uma enxurrada de ataques, principalmente por parte de religiosos, digamos, voluntariamente mal informados (vide caso Nando Reis). Aqui no nosso país essa parcela dos religiosos está muito ‘bem representada’ pela crescente massa de (neo)pentecostais (sem tirar o mérito dos demais cristãos pouco esclarecidos, por favor). Na lógica desses, se não se está com seu deus, está com o diabo... logo um ateu é um satanista. Esquece-se de que para um ateu não fazem sentido a existência de deuses nem demônios. Outra conclusão errônea é que o ateu é desprovido de valores morais e éticos, altruísmo, humildade e amor, como se tudo isso fosse patenteado por algum deus. Esquece-se que qualquer sociedade na face da terra, qualquer religião que professe, desenvolveu e cultivou todos esses conceitos, sendo portanto de natureza humana, e não sobrenatural. Outra: ateus são acusados de arrogantes e de se autodenominarem deuses... Esquecem agora que a busca pelo conhecimento, feita pelo questionamento, só cabe na humildade; enquanto que se afirmar como único digno de salvação e subjugar os demais é um exercício da arrogância. (Todos esses discursos intolerantes estão compilados na mente de Datena, por exemplo). 

Apesar de ser bem simples desfazer os ataques típicos a ateus como acima, devo reconhecer que boa parte dessas interpretações equivocadas se baseiam na lacuna presente do termo ‘ateu’. Quando alguém se diz cristão, por exemplo, não supomos apenas um conjunto de crenças, mas dogmas e doutrinas, que de certo modo delineiam uma conduta ética, filosófica, por mais que haja variações – e como há! Já o termo ateu é apenas uma negação: caracteriza a descrença em deuses ou outros seres e fenômenos sobrenaturais... e nada diz sobre o que o ateu pratica. Para isso, é preciso um complemento. 

Há pouco tempo entrei em contato com um desses complementos: o humanismo secular. Abrangendo não só ateus, mas também agnósticos e outros não religiosos, o humanismo secular é uma corrente filosófica  relativamente recente, mas cujos moldes são aqueles do renascimento ou iluminismo. Trata-se de uma visão focada na ciência e razão como fonte de progresso, acompanhado de constante preocupação com o bem estar humano e social... e independente de crenças sobrenaturais. Busca a ética política e social, direitos humanos, acesso ao conhecimento e ciência, consciência de nossas limitações e responsabilidades individuais. Com tudo isso, o humanismo secular descreveu e sintetizou os vários ideais e posicionamentos que desenvolvi ao longo de minha vida muito antes de encontrá-lo formalmente. Pessoas e comunidades, como o Bule Voador, têm contribuído para conhecê-lo melhor e até então a muito tenho me identificado. E na convicção de que não menos importante do que dizer o que não acredito, deve ser dizer em que acredito e o que pratico, afirmo: sou ateu e humanista secular (pelo menos até agora!).

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Direção

Nascido em julho, passei por aquele pequeno dilema sobre estar na faixa etária adequada para iniciar a 1ª série. Isso foi em 91. Professores e pedagogos recomendaram então que eu fizesse um teste com um psicólogo para ver se eu estava apto. O resultado foi um sucesso... com exceção da minha confusão entre esquerda e direita. As séries se passaram e a pequena confusão de direção sempre esteve presente. Dia desses me peguei dando instruções contrárias ao taxista: “À direita, por favor”, taxista faz conversão, “Não, à direita, eu disse”, taxista confuso, “Então, eu peguei à direita!”, silêncio, “Ah, desculpe, era esquerda então”, vergonha.
Mas a confusão é mais profunda, a ponto de afetar meus direcionamentos políticos, ideológicos, pessoais. Não consigo “tomar um partido” sobre assunto algum. Concordo com o ponto de vista liberal, mas também compreendo o conservador; critico religiosos e ateus; ouço samba e eletrônica. Em um debate, sou mais propenso a ouvir, não porque tenho uma excelente capacidade analítica, mas porque me perco entre prós e contras, concordando e discordando de todos. Metamorfoseio. Contrario o discurso, mudo de opinião quase histericamente e não sei diferenciar direita de esquerda! Cedo. Não tomo decisões rápidas, espero o pronunciamento e iniciativa de outrem, repito a mesma pergunta para pessoas diferentes em momentos diferentes. Protelo.
Não é ser mediador, nem sensato, pois isso também requer tomar ou identificar uma direção. Apenas flutuo desorientadamente em uma nuvem de temas polêmicos, oscilando entre o radical e o ponderado, sem convicção suficiente para criar argumentos e contra-argumentos fortes e diretos.
Preguiça de pensar seriamente, ou deficiência? Arrogância de querer sempre estar ‘certo’, ou medo? 
Não consigo enxergar de outro modo senão por muitos lados uma mesma história, e não consigo me decidir a qual lado estar... ensaio ideias, volto atrás, mas no fim me abstenho; jazo em dúvida.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Síndrome da Revolta da Musa

Aflige desde artistas em geral, profissionais ou amadores, até escritores de blog. É o luto por ser abandonado pela inspiração principal. Em geral, as causas do abandono são ignoradas pelo portador da síndrome, mesmo que ele saiba a priori que a relação com a inspiração requer não só paixão, mas também disciplina e dedicação. Como característico do processo de luto, há a dificuldade em aceitar o abandono, a resistência em admitir erros e superar a perda, mas é de caráter temporário.

Os mais dignos apelam para o hiato durante o processo. Para os que insistem, sobram clichês, falta vocabulário e poesia, perde-se coesão e concisão, havendo portanto o risco da produção nesse período ocasionar profundas marcas negativas na obra do portador da síndrome.


Ecos Falsos... Valeu enquanto durou!